1gestacao – Nossa visão de sujeito, realidade e processo formativo

A clínica formativa se constrói a partir de uma metodologia, uma articulação teórica e uma prática somática que está interessada no processo de construção da subjetividade hoje.

As bases desse pensamento, a Psicologia Formativa de Stanley Keleman, a esquizoanálise de Deleuze/Guatari, e as teorias do neo darwinismo neural se articulam para dar lugar a uma visão construtivista de sujeitos e subjetividades proposta por Regina Favre.

Dentro dessa perspectiva, temos uma visão de realidade enquanto “produção, um continuo processo de existencialização, e não como um dado”: um processo biológico e social ocorrendo o tempo todo dentro de nós e fora de nós, os seres humanos como um processo formativo vivo, a existência como um continuum de formas somáticas no devir, os modos de subjetivação como continuamente sendo produzidos no coletivo segundo jogos de força e poder, e a subjetividade como emergindo na interação dinâmica entre essas formas e sua pessoalização” (Regina Favre).

homem-cabeca A realidade é uma construção, constantemente sendo feita e refeita: territórios que se formam e se desmancham sob efeito dos fluxos de acontecimentos e jogos de força das mais diversas ordem, do biológico ao histórico, do afetivo ao social.

“Só podemos conhecer o sujeito enquanto relação, o corpo a que nos remetemos é o corpo que está respondendo aos acontecimentos. O corpo já não é mais um objeto da consciência, o corpo é um processo, o corpo está continuamente se fazendo.” (RF)

Nesse contexto e dentro desse quadro referencial, articulamos corpos e subjetividades, no plural, como processos de organizar,desorganizar e reorganizar formas vivas no devir.

Acontecimentos são vistos como conjunturas de fluxos de todo tipo: físicos, biológico, históricos, econômicos, familiares, de classe, da mídia, dos poderes, do mercado, de grupos, da tecnologia, da moda, etc. etc. (Felix Guatari/Sueli Rolnic).

Os acontecimentos nunca são percebidos em si mesmos mas são recortados por um estado de forma individual contemporâneo a eles (Regina Favre).

As formas como uma sociedade produz seus modos de viver organiza modos de subjetivação. Os modos de subjetivação são continuamente produzidos no coletivo, isso se constrói nas redes do socius, segundo jogos de força do poder.

“O movimento do desejo é feito de intensidade e língua… o desejo só funciona em agenciamento – agenciamentos dos corpos, movimentos de intensidades tentando passar, movimento de criação de sentido para efetuar essa passagem – tudo isso acontecendo ao mesmo tempo (Sueli Rolnic).

Sujeitos a ambientes estão num processo de contínua construção e desconstrução – esse processo se apóia num jogo importante de forças, a saber:rosa-bela3

  • A força formativa do vivo – processo vivo é corporificante, organiza experiência em forma, comportamento e relação
  • A força do processo social – o processo social, um jogo de forças relativamente externo ao sujeito, cria necessidades sociais e instituições, moldando subjetividades, conformando modos de ser para o sujeito
  • A força criativa dos sujeitos e do processo de pessoalização – nesse campo maturamos nossas heranças biológicas e sociais, aqui é que incidem tanto a força do processo vivo quanto se reeditam a ordens instituídas e dos processos sociais – nesse campo é onde se produzem as variações capazes de construir novas ordens a partir da qualidade dos encontros e dos modos singulares de operar dos vínculos e das redes humanas.

Essa é a visão formativa: corpos e mundos se constituindo a partir desses 3 processos: pré-pessoal, social e pessoal.

2 – Corpo e subjetividade

bananeira-grande2Dentro desta visão, o corpo não é um objeto de uma consciência que o comanda, nem este corpo é “suporte da repressão e nem o corpo é ilustração da vida psíquica – nós somos um processo vivo em auto-construção permanente – frutos da evolução, da embriogênese e da experiência” (Regina Favre).

A base da nossa experiência de nós mesmos é termos um corpo: o corpo é a sede da experiência e a consciência está enraizada no corpo – não há uma consciência fora do corpo comandando-o. (SK)

Pulsação é movimento em direção a si e de volta em direção ao mundo – na pulsação organizamos nossas intensidades em expressões que ganham mundo, e nesse movimento, se potencializam, atualizando a experiência, ou não. Na relação, no encontro dos corpos, vivos ou inanimados, materiais ou imateriais, que têm a potência de afetar e serem afetados, se atraírem ou se repelirem, organizamos nossas presenças.

Nossos movimentos, expressões no mundo, organizam formas meta-estáveis, viabilizadoras ou não dos nossos presentes e futuros.

Nosso processo formativo busca a forma adulta plena e é marcado por uma sucessão de mudanças, isto é: nossos corpos embriões, bebês, infantes, adolescentes, jovens, adultos, envelhescentes, tecendo e desmanchando formas, mundos e experiências, moldando nossos estilos de viver e sendo moldados por estes.

somagrama-vermelho 3 – A metodologia do como

Dentro desta abordagem a questão fundamental não é por que, mas como você faz o que você está fazendo. Todas as sensações, todas as emoções, todos os pensamentos, são, de fato, padrões organizados de movimento.

Somos pessoas diferentes ao longo de nossas vidas – a profissional, a mãe, a cidadã etc. Cada uma dessas pessoas tem um corpo diferente e passa por transições e transformações. Os vínculos mudam, nosso modo de amar muda, as satisfações e os desejos mudam, metas e imagens mudam.

As pessoas manipulam suas emoções ou desenvolvem padrões de stress físico quando alteram suas ondas musculares pulsáteis básicas. “A chave para operar o continuum formativo do sujeito corporificado está em como usamos a nós mesmos e o aprendizado de como o sistema nervoso e as vísceras usam os músculos para criar nossa presença no mundo”. (SK)

( detalhes sobre a metodologia do COMO em artigo específico neste site )

4 – A prática do corpar e cartografar – corporificando a experiência

rede-de-somagramas2A corporificação da experiência permite estabelecer distinções na forma que organizam múltiplas realidades bem como uma dimensão de profundidade.” (SK – 99)

Cartografar é a maneira de focalizar os acontecimentos significativos… Navegar o fluxo dos acontecimentos, utilizando diferentes tipos de “mapas”, descrições, reconhecendo linhas de força significativas para o nosso formar… Nossas formas organizam territórios existenciais mais ou menos estáveis, mais ou menos viabilizadores das nossas vidas presentes e dos nossos futuros, mais ou menos permeáveis ao surpreendente dos acontecimentos para nós. Vivemos no jogo cambiante dos movimentos estabilizadores e desestabilizadores das intensidades que afetam os territórios que formamos e desmanchamos. (RF?)

Configurando nossas formas corporais, reconhecemos como são os nossos modos (estratégias) de estar no mundo e sustentar “nossa” vida.

Como eu dou forma a mim mesmo, em resposta às situações de vida, em resposta aos encontros?

Como eu fiz transições de um estilo de vida para outro: por exemplo, de adolescente a adulto?

Como eu busco expressão e satisfação?

Nossas formas somáticas são a arquitetura viva dos nossos modos de viver os acontecimentos, sejam eles processos biológicos, históricos ou sociais. Temos muitos corpos, formas, comportamentos, organizando a experiência em camadas, articuladas ou conflitantes.

Socialmente, forma é ligação – nosso corpo vibrátil responde aos encontros, organizando expressões que são operadoras de intensidades. Estas matérias de expressão são produções psicossociais. Nosso corpo pessoal é a organização singular desses repertórios na busca de produzir uma vida significativa, organizado múltiplas camadas múltiplos corpos, com maior ou menor capacidade de articulação entre si.

Tecido vivo, movimento, gesto, emoção e cognição formam uma rede indissolúvel através da qual construímos nossas rotas existenciais, nosso comportamento, nosso viver.

Trabalhar com a metodologia do corpar implica num diálogo permanente entre auto-organização e auto-regulação (integração entre os aspectos volitivos e não volitivos do comportamento), organizar a aprendizagem a partir dos recursos emocionais, volitivos e intelectuais do sujeito, incrementando a capacidade de organizar uma experiência pessoal: de reconhecer, organizar e desorganizar formas a partir do reconhecimento do seu processo formativo.

homem-espiral5 – O processo formativo e a clínica – direções básicas

Ter forma é estar vivo – mas permanecer fixado numa forma é estagnar – nosso destino é continuar a formar. (SK corporificando a experiência)

Um traço distintivo desta clínica é que ela é voltada para a necessidade de responder aos desafios presentes na vida das pessoas, a vida como uma criação no processo de viver os encontros e os acontecimentos.

“A capacidade de estar no mundo é um ato corporal. Para entender uma pessoa é preciso saber como ela está presente, como ela perpetua estar presente e como ela antecipa um futuro.“

(Stanley Keleman, 2001)

Trata-se de poder ser e continuar sendo – não apenas insight, mas corporificar o processo da vida, buscando realizar todas as etapas do crescimento e amadurecimento do soma humano.

“Nós humanos estamos num processo contínuo de maturar e formar um self somático de modo pessoal. Somos concebidos como adultos e é o nosso adulto inato que está buscando organizar sua realidade na concepção, na meia idade, na velhice” (Stanley Keleman).

Pessoalizar o sofrimento face aos desafios da existência,: como a pessoa responde às oportunidades e vicissitudes de seu amadurecimento: como corporifica os desafios e agressões, traumas, abusos e negligências no seu processo de vir a ser no mundo.

A elaboração do sofrimento se torna, assim, um processo afirmativo, que dá continente para frustração e para o fracasso a partir da presença e não da falta.

incandescente2A aventura básica da vida é o modo como uma pessoa organiza sua forma de existência, desorganiza aquilo que não é mais relevante e gera novas experiências para se tornar o indivíduo que ela vive e não aquele que ela imagina que tem que ser “ (Stanley Keleman)

Para isso, é imprescindível organizar um ambiente confiável num ritmo propício ao amadurecimento, para poder:

  • Corporificar o processo da vida
  • Propiciar o reconhecimento e manejo dilemas formativos existenciais
  • Restaurar a conexão com a potência do vivo em nós
  • Fortalecer a potência formativa: a capacidade de organizar/encarnar experiência a partir dos encontros presentes com pessoas e situações, alinhando-se para prosseguir, sempre poroso à continuidade do processo formativo. (Regina Favre)
  • Restabelecer a possibilidade do tempo formativo, com foco no amadurecimento em direção às formas adultas e uma orientação presente-futuro.

Essas são direções básicas para o trabalho.